quinta-feira, 29 de julho de 2010

Na Superfície

Invejo as criaturas dos mares, peixes e tartarugas.

Enquanto vivo efêmero, na superfície,

Almejando o sol, sentado nessa planície,

Eles mergulham suaves, golfinhos e belugas,

Sentindo, se aprofundando na vida,

Indo embora, sem saber o local da partida.

 

Criatura da superfície, dependente do ar,

Sou o puro desejo, sou o beijo, o amar.

Quero um conto de fadas, ou conversa de bar,

Se me desperta interesse sou coringa, sou seu par.

 

Mas se tiver que me usar, me use,

Quero apenas que seja sincero,

Que me toque na superfície da pele,

Mas que o prazer que nos une, severo,

Seja o início de um contrato que se sele.

 

E no final, quando me usares por completo,

Quando me descartares, seu mero objeto,

Me jogue ao oceano, impiedoso, perverso,

E me afunde, me faça viver submerso,

Pois criarei guelras, entrarei em um escafandro,

Me adaptarei a esse mar de lágrimas

Que eu mesmo chorei, e ao qual me atiro

Para livrar-me do medo daquilo que admiro.

Saudade

Por mais que eu me mova, dê voltas,

Ainda sinto uma imensa vontade,

Imensa saudade,

Um calafrio, uma dor no peito.

Sinto saudades do sexo, saudades dos aromas,

Saudades dos gestos e dos idiomas.

Sinto saudades das bocas, dos olhos,

E chegarei ao extremo: Aposto

Que sentirei saudades até mesmo do que não gosto.

Saudades de um belo gozo, as sensações,

Vontade de estar vivo, tocar-se, ser-se,

E apenas por um momento saciar-me

A eterna saudade.

Saudade até da minha vida,

Que nem sequer se acabou,

Tenho saudades do tudo, do nada,

Daquilo que já passou,

E até mesmo do futuro

Meu jogar no escuro,

O que ainda nem começou.

As Nuvens

As nuvens passam, brancas, suaves,

Passam as nuvens, só as horas não passam.

Fico aqui, buscando alguma imagem,

Mas elas não ligam, só estão de passagem

Revelando meu desespero, meu frio,

O medo de que se juntem,

Se tornem tempestade.

Meu completo vazio.

 

Quem saberá o segredo das nuvens,

Pairando alto, jogadas ao léu?

Cumulus Nimbus, a chuva, as dores,

E afinal, um arco-íris pintará meu céu?

 

Me envolvam, me levem, me façam passar,

Façam meu tempo passar depressa,

Mas tenham piedade,

Meu mal é a saudade,

Não me derrubem daqui.

Não suportaria colocar de novo os pés no chão

E perceber que no meu devaneio,

No meu fracasso,

No espaço da minha vida, onde mais do que tudo já sei,

Que por mais que eu tente, que eu faça, que eu ame,

Por mais que eu proclame,

Aceito,

Eu nunca voarei.

Ter Asas

Para voar é preciso ter asas,

E para ter asas é preciso ter sorte.

Mas nunca acreditei em promessas...

Me vejo mais Ícaro que arcanjo,

Tão perto da morte,

Já que sou um tolo arriscando a própria vida.

Sou eu kamikaze, a caminho do voo suicida.

Seguindo a Canção

Caminhei, cantei, e segui a canção.

Quando quis voar, acabei Ícaro,

E quando quis amar, retalhei meu coração.

 

Machuquei-me por dentro,

E tenho consciência de cada corte.

Vago pelo mundo em busca de um centro,

Mas achar um rumo nunca foi meu forte.

 

Andei por ruas que não ligavam a lugar algum,

Fiz até amigos, mesmo sem conhecer nenhum.

Pensei ter esgotado os enigmas,

Quando solucionei apenas um.

 

Mas não importa o quanto me doa,

Nem mesmo alguém que me diga,

Em minha alma soa uma voz,

Não sei se amiga ou inimiga,

Falando de maneira feroz,

E querendo que eu sempre prossiga.

Re-urbanizando

Nossos tempos de glória se foram.

Nossa Grécia, seus templos.

Nossos tempos

De glória

Concreta.

Sem Creta.

Sociedade Secreta

Formada por pessoas vazias,

Formando pessoas vazias,

Formadas no vazio

Esguio.

Sem fio.

Confio apenas em mim,

Se não for assim

Eu morro,

Sem socorro.

Só corro

Com minhas próprias pernas,

De carro,

Com ida sem volta.

Comida para todos

Os fracos

De vida,

Ricos de espírito.

Coitados.

Todos nós alienados,

Alienígenas

Da cidade que nos cria.

Queria

De forma secreta,

Sem Creta,

Ser grego,

Ser agregado,

Segregado

Pelo mundo,

Oriundo,

De forma a voltar a ser

Sábio.

No lábio

A palavra certa,

Sem medo de dizer,

Semeando o saber

Que hoje falta.

Não sei mais de nada,

Nem quem sou, nem quem és.

Só.

Solidão.

Só a solidão é minha lei

Numa cidade

Que não tem lei.

Só sei

Que o sossego se foi.

Só cego.

Nem cego deixa de ver

O que alguns tentam

O tempo todo

Esquecer.

Eis que ser

Forte

Adiantaria,

Se bastasse

Para sempre.

Estrela Cadente

A pau e pedra, meu enorme desatino.

Um legado mal construído de fúria,

Projetado desde que era um menino,

Afogava-se o tempo todo na luxúria

De conseguir manipular seu destino.

 

E revelou-se, com o caos e a cegueira

Do mundo em que reinava absoluto.

Procurou sapiência sob a macieira

De onde só conseguiu o podre fruto

De ganância e de uma vida faceira.

 

A celebrar, no caminho, o estandarte,

E então se acabou a esperança.

De súbito, a morte, um enfarte,

E ao mundo só deixou uma herança.

 

Em seu túmulo, esculpida, a lápide,

Onde sobra ao menos o prestígio,

A glória daquele último vestígio,

Da rigidez de sua vida cariátide,

E da queda de seu império carolíngio.

Face

Maquiei a minha face,

Como se do circo saísse.

 

E antes fosse.

 

Evitei os desastres

Com a mentira no rosto.

 

E quem me dera ter alguém assim

Como você

Desde o início de tudo.

 

Precisaria eu de disfarce?

Precisaria eu evitar desastre?

 

Não sei.

 

Só sei dizer que é pra você

Que me revelo assim

De cara limpa, sem nenhum contraste.

 

É por isto que te amo.

A Dor

Há uma ferida aberta em minha alma,

Acho que ela não se cura.

Ela não pára de doer um segundo,

Não sei de que é feita, se de pranto ou de amargura,

Mas sei que dói, quase toda a dor do mundo.

 

Aos poucos me deparo com sonhos,

Que a vida nos trás com o maior prazer.

De muitos desisto, outros concretizo

Aprendendo de vez, e com sensatez tentando escolher

Os rumos daquilo que realizo.

Mas a dor... Esta não para de doer.

 

Uma dor rara e incessante, constante

Na imensa forma de agir.

E então percebi que dando tanta atenção a ela

Perdia o próprio prazer de sentir

O que na dor não se pode conter, nem conseguir.

 

Mas hoje, olhando para trás, vejo num instante

Que amigos fiz nesta vida, e que amores deixei por aqui.

Não que tenha sido alguém importante,

Mas quem não é importante para si?

 

Agora sei do que se trata, e não posso mais omitir.

Quero que escrevam em meu epitáfio,

Embora saiba que ninguém vai ler,

Que toda a imensa dor que senti

Foi a simples, e pura, dor do viver.

(E eu vivi...).

História

No início, mas não no início do que digo,

No início do início, do nosso início, do início do teu corpo

Nu ou vestido, que é apenas o início do meu desejo,

Apenas o início do que sinto, e o início do que escrevo.

 

Tens o início perfeito, daqueles que não se preocupa com o fim.

Minha história seria eterna para ti.

 

No meio, já não sei quem és, apesar de dizer-me que sei.

Metade te revela a metade de si, e metade revela aquilo que deixei.

Queria poder decifrar cada metade, e tornar o meio um inteiro,

Com começo e meio, sem fim,

Fazendo parte de ti, e resgatando as metades que ficaram por aí.

 

O meio de tudo me faz pensar, então te olho novamente,

Revejo o início, propagando os velhos desfechos

Daquilo que recordo de repente.

 

E no fim, já nem sei quem sou eu.

Me perco em teu corpo de vez, como se perde em todo final.

 

E no velho final, velha despedida, velha dor incompreendida

De todo final, feliz ou triste,

Saberei, mais do que tudo, que no final das contas,

O hoje apenas acaba porque o amanhã existe.

A Calmaria

Tudo está calmo, relaxante e sereno.

Tudo está pleno.

Tão calmo que dá medo, como a calmaria

Do suspiro final.

Tão calmo, que duvido da minha certeza

Sem certeza.

Tão calmo que chego a acreditar

Que também estou calmo.

 

Os dias se passam, vai-se a calmaria,

O destino se concretiza, e a bondade

Se esvai como o vento da minha heresia,

Repleta de escombros e crueldade,

Que se esvai como fosse o calor da tua pele, hoje fria,

Deixada no gelo desta cidade de pedra.

De pessoas com corações pungentes

De nada, nada que possa ser escrito,

Apenas sentido, e resgatado em nossas mentes.

Insônia

Deveria estar dormindo, mas perderia tudo.

Acordado também perco, só que não perco mudo.

Nem sei ao certo o que tenho de tão valioso

Que não gostaria de ver se esvaindo,

Caindo das mãos, meu bem mais precioso.

 

Quem me dera ser apenas sonho,

Mas de que sonho? Estou acordado

Pensando, sofrendo, calado e tristonho

Me sinto como todas as luzes, apagado.

 

E cada vez que resgato um devaneio

De um momento insensato, lisongeiro,

Penso como seria melhor e mais verdadeiro

Ter dormido para sempre, e partido ao meio

O motivo para que esse ser ao mundo veio,

Despedaçando de uma vez, meu sonho inteiro.

Cinco Dias

O mundo vibrou, o céu já não estava igual.
Parecia que eu tinha continuado, ou voltado ao normal.

Cinco dias se passaram desde então, para muitos, tempo de menos,
Para poucos, saudades de mais.
Saudades de um tempo mais simples talvez, saudades talvez
De quem te fez mais feliz no quarto dia,
Ou de quem te ligou no primeiro.

Talvez seja saudade da solidão do dia zero, antes de tudo existir.
Quem sabe não seja vontade de te ver.
Quero um santo remédio pra esquecer, ou pra lembrar
Que ninguém jamais havia me amado
Antes de o quinto dia chegar.

Talvez o quinto dos infernos seja meu lugar, talvez...
Talvez meu talvez não seja apenas talvez quando você chegar.
Nunca esperei nem lutei, mas vi tudo se conquistar,
Tenho medo de onde possa parar.

Cansei de sofrer por você, cansei de pensar sem entender.
Talvez seja pobre o meu rimar,
Não quero enfeitar minha razão.
Se o meu pecado é amar que eu ame,
Mas que não ame na solidão.

Quando o sexto dia chegar, pode ser que a tristeza volte,
Pode ser que o amor se revolte, pode ser que a vida estranhe.
Pode ser até que ele não chegue,
Onde chegarei sem ele?

E no sétimo dia chorarei de novo, com todos os pecados da vida.
Tentarei voltar ao passado, ao zero, ao um, ao quatro.
Na memória conseguirei com certeza, pela intensidade dos dias,
Porém jamais sentirei novamente teu abraço, ou escutarei tua voz.

Uma voz ausente se foi, pela escolha do fraco,
E pelas distâncias do céu.
Só me resta a triste reflexão, e, por fim,
Os milagres da minha vida de fel.