Invejo as criaturas dos mares, peixes e tartarugas.
Enquanto vivo efêmero, na superfície,
Almejando o sol, sentado nessa planície,
Eles mergulham suaves, golfinhos e belugas,
Sentindo, se aprofundando na vida,
Indo embora, sem saber o local da partida.
Criatura da superfície, dependente do ar,
Sou o puro desejo, sou o beijo, o amar.
Quero um conto de fadas, ou conversa de bar,
Se me desperta interesse sou coringa, sou seu par.
Mas se tiver que me usar, me use,
Quero apenas que seja sincero,
Que me toque na superfície da pele,
Mas que o prazer que nos une, severo,
Seja o início de um contrato que se sele.
E no final, quando me usares por completo,
Quando me descartares, seu mero objeto,
Me jogue ao oceano, impiedoso, perverso,
E me afunde, me faça viver submerso,
Pois criarei guelras, entrarei em um escafandro,
Me adaptarei a esse mar de lágrimas
Que eu mesmo chorei, e ao qual me atiro
Para livrar-me do medo daquilo que admiro.