segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Sonhos Perdidos
E num ataque de fúria me atirei às brasas.
Dos mares, quis conhecer o mais profundo,
Dos ares, a capacidade de todas as asas.
Os oceanos em que mergulhei eram poluídos,
E os ventos que me levaram cortaram-me a face.
Foi então que me vi assim, ferido
E ao conquistar meus sonhos, estou num impasse.
Como se dentro de mim houvesse um deserto,
Futuro incerto, com o presente perfeito.
Estando preso na indecisão, corpo fechado, aberto
Para o que ainda não havia descoberto.
Percebo que a ambição, que mantive tão perto
Foi antes de tudo, meu maior defeito.
E no fim de tudo, cercado daquilo o que queria,
Como se tão pouco faltasse para ser completo,
Vi a vida sem obstáculos, monótona e fria,
Tão vazia que por ninguém buscava afeto,
Exceto pelos segredos que em mim guarnecia.
domingo, 1 de agosto de 2010
Preces Pagãs
A paixão mal resolvida, o súbito,
O desespero daquele que foi rei
E de um dia para o outro se viu súdito.
Esta força destruidora da coragem,
Que inibe o tempo todo a nossa glória,
Faz da vida um momento de estiagem
E consome a infinidade da memória.
De onde vem essa obscura imagem
Quando penso ter encontrado o caminho?
Me deparei novamente com a barragem,
Eu sou o pássaro derrubado do ninho.
Tão singelo o meu cair deste abismo,
Meu flagelo particular, meu sorriso
Fechado para esta sessão de batismo
Até que os anjos me carreguem de improviso
E me levem, junto com eles, ao paraíso.
Incertezas
Retrocedi, ao invés de seguir em frente.
Corro, mas já não tenho outra saída
Para esse sentimento intermitente.
Quente e frio,
Vivo ao léu, meu peito é vazio,
Coração esmagado por incertezas.
Não sei mais por onde me guio,
Para tornar mais curtas nossas sutilezas.
E agora, com um toque, me acalmas.
Do mundo das almas
Volto eu com o corpo intacto
Para então selarmos o pacto
Para o qual batemos palmas,
E ao qual resistiremos ao impacto.
A verdade se revelará logo,
Tomarei uma atitude, eu juro.
E mesmo estando tudo obscuro,
Me ilumino, e às trevas me jogo,
Haja o que houver,
Para que o nosso amor seja mais puro.
Escrito em conjunto com Beatriz Camargo, do blog "Em Busca de Alguma Coisa..."
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Na Superfície
Invejo as criaturas dos mares, peixes e tartarugas.
Enquanto vivo efêmero, na superfície,
Almejando o sol, sentado nessa planície,
Eles mergulham suaves, golfinhos e belugas,
Sentindo, se aprofundando na vida,
Indo embora, sem saber o local da partida.
Criatura da superfície, dependente do ar,
Sou o puro desejo, sou o beijo, o amar.
Quero um conto de fadas, ou conversa de bar,
Se me desperta interesse sou coringa, sou seu par.
Mas se tiver que me usar, me use,
Quero apenas que seja sincero,
Que me toque na superfície da pele,
Mas que o prazer que nos une, severo,
Seja o início de um contrato que se sele.
E no final, quando me usares por completo,
Quando me descartares, seu mero objeto,
Me jogue ao oceano, impiedoso, perverso,
E me afunde, me faça viver submerso,
Pois criarei guelras, entrarei em um escafandro,
Me adaptarei a esse mar de lágrimas
Que eu mesmo chorei, e ao qual me atiro
Para livrar-me do medo daquilo que admiro.
Saudade
Por mais que eu me mova, dê voltas,
Ainda sinto uma imensa vontade,
Imensa saudade,
Um calafrio, uma dor no peito.
Sinto saudades do sexo, saudades dos aromas,
Saudades dos gestos e dos idiomas.
Sinto saudades das bocas, dos olhos,
E chegarei ao extremo: Aposto
Que sentirei saudades até mesmo do que não gosto.
Saudades de um belo gozo, as sensações,
Vontade de estar vivo, tocar-se, ser-se,
E apenas por um momento saciar-me
A eterna saudade.
Saudade até da minha vida,
Que nem sequer se acabou,
Tenho saudades do tudo, do nada,
Daquilo que já passou,
E até mesmo do futuro
Meu jogar no escuro,
O que ainda nem começou.
As Nuvens
As nuvens passam, brancas, suaves,
Passam as nuvens, só as horas não passam.
Fico aqui, buscando alguma imagem,
Mas elas não ligam, só estão de passagem
Revelando meu desespero, meu frio,
O medo de que se juntem,
Se tornem tempestade.
Meu completo vazio.
Quem saberá o segredo das nuvens,
Pairando alto, jogadas ao léu?
Cumulus Nimbus, a chuva, as dores,
E afinal, um arco-íris pintará meu céu?
Me envolvam, me levem, me façam passar,
Façam meu tempo passar depressa,
Mas tenham piedade,
Meu mal é a saudade,
Não me derrubem daqui.
Não suportaria colocar de novo os pés no chão
E perceber que no meu devaneio,
No meu fracasso,
No espaço da minha vida, onde mais do que tudo já sei,
Que por mais que eu tente, que eu faça, que eu ame,
Por mais que eu proclame,
Aceito,
Eu nunca voarei.
Ter Asas
Para voar é preciso ter asas,
E para ter asas é preciso ter sorte.
Mas nunca acreditei em promessas...
Me vejo mais Ícaro que arcanjo,
Tão perto da morte,
Já que sou um tolo arriscando a própria vida.
Sou eu kamikaze, a caminho do voo suicida.
Seguindo a Canção
Caminhei, cantei, e segui a canção.
Quando quis voar, acabei Ícaro,
E quando quis amar, retalhei meu coração.
Machuquei-me por dentro,
E tenho consciência de cada corte.
Vago pelo mundo em busca de um centro,
Mas achar um rumo nunca foi meu forte.
Andei por ruas que não ligavam a lugar algum,
Fiz até amigos, mesmo sem conhecer nenhum.
Pensei ter esgotado os enigmas,
Quando solucionei apenas um.
Mas não importa o quanto me doa,
Nem mesmo alguém que me diga,
Em minha alma soa uma voz,
Não sei se amiga ou inimiga,
Falando de maneira feroz,
E querendo que eu sempre prossiga.
Re-urbanizando
Nossos tempos de glória se foram.
Nossa Grécia, seus templos.
Nossos tempos
De glória
Concreta.
Sem Creta.
Sociedade Secreta
Formada por pessoas vazias,
Formando pessoas vazias,
Formadas no vazio
Esguio.
Sem fio.
Confio apenas em mim,
Se não for assim
Eu morro,
Sem socorro.
Só corro
Com minhas próprias pernas,
De carro,
Com ida sem volta.
Comida para todos
Os fracos
De vida,
Ricos de espírito.
Coitados.
Todos nós alienados,
Alienígenas
Da cidade que nos cria.
Queria
De forma secreta,
Sem Creta,
Ser grego,
Ser agregado,
Segregado
Pelo mundo,
Oriundo,
De forma a voltar a ser
Sábio.
No lábio
A palavra certa,
Sem medo de dizer,
Semeando o saber
Que hoje falta.
Não sei mais de nada,
Nem quem sou, nem quem és.
Só.
Solidão.
Só a solidão é minha lei
Numa cidade
Que não tem lei.
Só sei
Que o sossego se foi.
Só cego.
Nem cego deixa de ver
O que alguns tentam
O tempo todo
Esquecer.
Eis que ser
Forte
Adiantaria,
Se bastasse
Para sempre.
Estrela Cadente
A pau e pedra, meu enorme desatino.
Um legado mal construído de fúria,
Projetado desde que era um menino,
Afogava-se o tempo todo na luxúria
De conseguir manipular seu destino.
E revelou-se, com o caos e a cegueira
Do mundo em que reinava absoluto.
Procurou sapiência sob a macieira
De onde só conseguiu o podre fruto
De ganância e de uma vida faceira.
A celebrar, no caminho, o estandarte,
E então se acabou a esperança.
De súbito, a morte, um enfarte,
E ao mundo só deixou uma herança.
Em seu túmulo, esculpida, a lápide,
Onde sobra ao menos o prestígio,
A glória daquele último vestígio,
Da rigidez de sua vida cariátide,
E da queda de seu império carolíngio.
Face
Maquiei a minha face,
Como se do circo saísse.
E antes fosse.
Evitei os desastres
Com a mentira no rosto.
E quem me dera ter alguém assim
Como você
Desde o início de tudo.
Precisaria eu de disfarce?
Precisaria eu evitar desastre?
Não sei.
Só sei dizer que é pra você
Que me revelo assim
De cara limpa, sem nenhum contraste.
É por isto que te amo.
A Dor
Há uma ferida aberta em minha alma,
Acho que ela não se cura.
Ela não pára de doer um segundo,
Não sei de que é feita, se de pranto ou de amargura,
Mas sei que dói, quase toda a dor do mundo.
Aos poucos me deparo com sonhos,
Que a vida nos trás com o maior prazer.
De muitos desisto, outros concretizo
Aprendendo de vez, e com sensatez tentando escolher
Os rumos daquilo que realizo.
Mas a dor... Esta não para de doer.
Uma dor rara e incessante, constante
Na imensa forma de agir.
E então percebi que dando tanta atenção a ela
Perdia o próprio prazer de sentir
O que na dor não se pode conter, nem conseguir.
Mas hoje, olhando para trás, vejo num instante
Que amigos fiz nesta vida, e que amores deixei por aqui.
Não que tenha sido alguém importante,
Mas quem não é importante para si?
Agora sei do que se trata, e não posso mais omitir.
Quero que escrevam em meu epitáfio,
Embora saiba que ninguém vai ler,
Que toda a imensa dor que senti
Foi a simples, e pura, dor do viver.
(E eu vivi...).
História
No início, mas não no início do que digo,
No início do início, do nosso início, do início do teu corpo
Nu ou vestido, que é apenas o início do meu desejo,
Apenas o início do que sinto, e o início do que escrevo.
Tens o início perfeito, daqueles que não se preocupa com o fim.
Minha história seria eterna para ti.
No meio, já não sei quem és, apesar de dizer-me que sei.
Metade te revela a metade de si, e metade revela aquilo que deixei.
Queria poder decifrar cada metade, e tornar o meio um inteiro,
Com começo e meio, sem fim,
Fazendo parte de ti, e resgatando as metades que ficaram por aí.
O meio de tudo me faz pensar, então te olho novamente,
Revejo o início, propagando os velhos desfechos
Daquilo que recordo de repente.
E no fim, já nem sei quem sou eu.
Me perco em teu corpo de vez, como se perde em todo final.
E no velho final, velha despedida, velha dor incompreendida
De todo final, feliz ou triste,
Saberei, mais do que tudo, que no final das contas,
O hoje apenas acaba porque o amanhã existe.
A Calmaria
Tudo está calmo, relaxante e sereno.
Tudo está pleno.
Tão calmo que dá medo, como a calmaria
Do suspiro final.
Tão calmo, que duvido da minha certeza
Sem certeza.
Tão calmo que chego a acreditar
Que também estou calmo.
Os dias se passam, vai-se a calmaria,
O destino se concretiza, e a bondade
Se esvai como o vento da minha heresia,
Repleta de escombros e crueldade,
Que se esvai como fosse o calor da tua pele, hoje fria,
Deixada no gelo desta cidade de pedra.
De pessoas com corações pungentes
De nada, nada que possa ser escrito,
Apenas sentido, e resgatado em nossas mentes.
Insônia
Deveria estar dormindo, mas perderia tudo.
Acordado também perco, só que não perco mudo.
Nem sei ao certo o que tenho de tão valioso
Que não gostaria de ver se esvaindo,
Caindo das mãos, meu bem mais precioso.
Quem me dera ser apenas sonho,
Mas de que sonho? Estou acordado
Pensando, sofrendo, calado e tristonho
Me sinto como todas as luzes, apagado.
E cada vez que resgato um devaneio
De um momento insensato, lisongeiro,
Penso como seria melhor e mais verdadeiro
Ter dormido para sempre, e partido ao meio
O motivo para que esse ser ao mundo veio,
Despedaçando de uma vez, meu sonho inteiro.
Cinco Dias
Parecia que eu tinha continuado, ou voltado ao normal.
Cinco dias se passaram desde então, para muitos, tempo de menos,
Para poucos, saudades de mais.
Saudades de um tempo mais simples talvez, saudades talvez
De quem te fez mais feliz no quarto dia,
Ou de quem te ligou no primeiro.
Talvez seja saudade da solidão do dia zero, antes de tudo existir.
Quem sabe não seja vontade de te ver.
Quero um santo remédio pra esquecer, ou pra lembrar
Que ninguém jamais havia me amado
Antes de o quinto dia chegar.
Talvez o quinto dos infernos seja meu lugar, talvez...
Talvez meu talvez não seja apenas talvez quando você chegar.
Nunca esperei nem lutei, mas vi tudo se conquistar,
Tenho medo de onde possa parar.
Cansei de sofrer por você, cansei de pensar sem entender.
Talvez seja pobre o meu rimar,
Não quero enfeitar minha razão.
Se o meu pecado é amar que eu ame,
Mas que não ame na solidão.
Quando o sexto dia chegar, pode ser que a tristeza volte,
Pode ser que o amor se revolte, pode ser que a vida estranhe.
Pode ser até que ele não chegue,
Onde chegarei sem ele?
E no sétimo dia chorarei de novo, com todos os pecados da vida.
Tentarei voltar ao passado, ao zero, ao um, ao quatro.
Na memória conseguirei com certeza, pela intensidade dos dias,
Porém jamais sentirei novamente teu abraço, ou escutarei tua voz.
Uma voz ausente se foi, pela escolha do fraco,
E pelas distâncias do céu.
Só me resta a triste reflexão, e, por fim,
Os milagres da minha vida de fel.